Caro amigo,
Se eu
soubesse escrever teria deixado uma carta para você. Uma
carta que poderia ter sido entregue quando você ficou agachado
ao meu lado, passando a mão pela minha cabeça e
olhando para meus olhos sem dizer nenhuma palavra.
Naquele momento eu entendi, olhando nos seus olhos, que você
estava morrendo de pena de mim. Pena porque você achava
que eu estava sentindo muitas dores e porque nós dois sabíamos
que estávamos prestes a uma separação definitiva.
Então, na força dos nossos olhares eu passei tudo
isso que você escreveu:
Amigo
Lu,
confesso a
você que nos dias que antecederam a minha viagem para outros
campos, eu fiz uma reconstituição dos onze anos
que vivemos juntos. Comecei pelo dia em que você foi me
escolher, lá onde eu estava com o resto dos meus irmãos.
Logo de cara eu simpatizei com você. Pelo meu instinto,
achei que você era o tipo de pessoa que podia confiar. Enquanto
meus irmãos faziam um monte de traquinagens, tentei lhe
passar tranqüilidade. Naquele canil, fiquei mais ao lado
dos meus irmãos, mas sem tirar os olhos dos seus, lembro-me
de você dizendo: pronto, ele me escolheu! Lembro-me de você
me estendendo a sua quentinha e aconchegante mão para a
qual não hesitei em saltar. E dali já saímos
juntos. Fui em seu carro numa caixinha de sapato com uma toalhinha
bem quentinha... Demorou um pouco até seu carro parar novamente...
Acho que viajamos...
Naquele dia
mesmo você me deu um nome. No inicio eu confesso que não
entendia bem, depois fui me acostumando. Você me chamou
de "Quest".
Chegamos à
casa que você morava e então você me apresentou
as pessoas mais especiais em minha vida: A Lu, sua esposa, a Dona
Teresa, sua sogra e o Sr. José Lúcio, seu sogro,
esses dois últimos meus companheiros pelos anos que vinham
pela frente. Assim que fomos para dentro de casa, a Lu percebeu
que eu estava com uma coceira e tanto, e graças a ela foram
descobertos uns chatos carrapatinhos que herdei daquele canil
que compartilhava com minha família canina. Foi meu primeiro
banhinho e com muito carinho a Lu, uma amiga dela e a Dona Teresa
me aliviaram daquela coceira chata... Nunca esquecerei aquele
dia. Soube, desde criança, que eu estava em boas mãos.
Logo depois,
você me apresentou uma coisa redonda e gostosa de morder
e que foi a minha paixão número um por uns bons
tempos da minha vida: você a chamava de "bolinha".
Eu tinha a
varanda, a garagem e o alpendre da casa só para mim. Quando
fazia calor eu entrava na lavanderia coberta e me refrescava deitando
minha barriga no chão fresco.
Eu dormia
ali na lavanderia, porque Dona Teresa arrumou uma casinha para
mim, mas eu não dispensava ficar deitado na cerâmica
fria.
Da garagem
eu avistava o portão de entrada, todo o movimento da rua,
e avisava quando alguém chegava. Adorava pegar o vento
que vinha de todos os lados, o que tornava a varanda da garagem
o lugar mais ventilado da casa.
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O mês
de novembro chegou e apareceu uma dor no meu quadril, que eu não
conseguia saber de onde vinha. Era difícil até ficar
de pé. Por dias eu até tremi de tanta dor, tive
febre alta, não tinha apetite mais...
Vi a sua cara
de preocupação com as coisas que a veterinária
falava para você. A muito contragosto, tomei todos aqueles
remédios que ela receitou.
Fiz vários
exames... Via a cara de tristeza quando vocês chegavam perto
de mim. Comecei a ficar muito magro. Perdi a vontade de comer.
Só queria ficar deitado. Mas, evitei sempre reclamar...
Não sabia se ia incomodar...
O mês
de dezembro, que sempre foi um mês alegre por causa do meu
aniversário e dos preparativos para o Natal, dessa vez
foi o mês mais triste para vocês. Eu não queria
que isso fosse motivo de tristeza para vocês. Afinal de
contas vocês não imaginam o quanto eu fui feliz ao
lado de vocês. Pensem nos momentos de alegria que passamos
juntos. Afinal, eu fui seu filho, da Lu, da Dona Teresa e do Sr.
Lúcio por onze anos. Nos momentos em que vocês sentiam
saudades dos filhos que estavam longe, era comigo que vocês
trocavam carinhos e por instantes a saudade partia. Nos momentos
em que precisavam de um amigo era a mim que recorriam para um
afago...
No meu último
aniversário junto de vocês ainda recebi novos presentes,
que por motivo de minhas condições de saúde,
não tive forças nem para agradecê-los como
mereciam... Mas aproveitei como nunca o novo travesseirinho que
me deram, principalmente nos meus difíceis e dolorosos
dias de dezembro. Minhas dores foram ali abrandadas, com certeza,
e por mais isso sou eternamente grato a vocês.
Desculpem-me
por não ter agüentado mais suportar as dores. Não
era mais possível adiar o sofrimento de uma despedida.
Sou muito agradecido pelo esforço que vocês fizeram
por mim. A todos os doutores que cuidaram de mim com todo seu
conhecimento, também sou muito grato. Sei que eles deram
o seu melhor...
Gostaria que
vocês soubessem que eu sempre estive ao seu lado e, quando
nos dias de lua cheia vocês estiverem numa varanda ou numa
janela, basta ficarem em silêncio e fecharem os olhos para
relembrarem minha imagem, escutarem meu latido e me sentirem por
perto.
Deixo minhas
bolinhas mastigadas para o próximo amigo que vocês
terão. Deixo também minha casinha aconchegante e
meus paninhos companheiros de longa jornada. Deixo também
minha coleira de passeio, com a qual seu novo amigo poderá
ser guiado pelos melhores caminhos, como eu sempre fui. Espero
que ele seja parecido comigo. Que ele seja meigo e carinhoso como
eu fui com vocês. Que goste de sua comida como eu gostei.
Que trate bem a todos e que seja menos temperamental que eu. Sei
que às vezes eu aborrecia vocês com as minhas manias...
Mas vocês me fizeram sentir quase humano... e um membro
de sua família...
Muito obrigado
por tudo. Sei que nunca nos esqueceremos. De seu eterno amigo,
Quest.
Pouso Alegre,
25 de janeiro de 2010.
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Daquela
varanda escutei os risos da família, e por muitas vezes
vocês me deixavam compartilhar daquela alegria, ficando
deitadinho na sala de TV, olhando e tentando entender a tudo
e a todos.
Por muitas
vezes, vi vocês chorando me chamarem e ficarem fazendo
carinho em mim. Vi vocês soluçarem de dor sem saber
o que estava acontecendo. Escutei vocês perderem noites
de sono e ficarem caminhando sozinhos pela casa na madrugada.
Vi seus rostos se alegrarem quando eu trazia na boca uma bola
de tênis toda babada ou meu paninho de dormir. Puxa! Eu
adorava quando você brincava com meu paninho comigo. Como
eu adorava meus passeios até a mina d'água. Era
cansativo, mas o meu companheirão, Sr. José Lúcio,
sempre me guiava e me incentivava, não deixando nunca
que eu corresse o menor perigo. Bons momentos !!
Naquela
casa eu vi a família crescer, com a chegada das queridas
Lili, sua filha, e da Ana Júlia, sua afilhadinha. Essas
duas também eram minhas amigonas... Eu as vi dentro das
barrigonas da Lu e da Ju até seu nascimento... E depois,
as vi crescer... Adorava nossas brincadeiras no alpendre, adorava
dar boas lambidas em minhas doces amiguinhas... Já na
rua, por inúmeras vezes eu fiz companhia ao Sr. Lúcio
para tomar conta das idas e vindas das minhas doces amiguinhas
em sua bicicleta azul...
Naquela
garagem eu exercitava minha garganta com meus latidos e também
alguns uivados, quando avistava alguma pretendente, e era ali
que adorava receber os carinhos daqueles que chegavam em casa.
Seu pai, o Sr. Élio, era o que mais me fazia festa quando
chegava aqui, me rolando de barriga pra cima e aprontando a
maior algazarra comigo. Como eu adorava esses carinhos...
Passados
dois anos, soube que nos mudaríamos para uma casa com
quintal, com grama e com uma nova casinha para mim. Mas o amor
e o apego de Dona Teresa não me deixaram ir com vocês,
mesmo porque o gramado da casa ainda precisava ficar mais firme
para agüentar minhas correrias no quintal... Vocês
vinham me ver quase todos os dias e eu também adorava
ir passear até a casa de vocês.
Recebi meus
cuidados diários pelas mãos do Sr. José
Lúcio e da Dona Teresa, essa sempre me chamando de uma
palavra esquisita, que não parecia nada com o meu nome,
mas eu sabia que era de um jeito carinhoso: ela me chamava de
"meu Fiotinho"...
Por adorar
tomar meus banhos bem demorados, acabei por ficar com otite,
uma chatice que me incomodava a orelha sempre. Mais chato ainda
era curar aquela coceira em meus ouvidos. Você e Dona
Teresa tinham que pingar uma gota gelada no meu ouvido, mas
sei que resolvia a incômoda coceira até o meu próximo
banho...
Numa bela
tarde ensolarada, você e a Lu vieram nos ver e vi o Sr.
José Lúcio e a Dona Teresa muito tristes. Depois
de algum tempo conversando vocês vieram falar comigo e
vi a Lu chorando bastante, enquanto me acariciava a barriga.
Você me mandou buscar o paninho e fez aquela nossa brincadeira
favorita, depois deu aqueles seus tapinhas no meu peito, me
agradando muito e dizendo: "Fortão, fortão!!!..."
Depois vi o Sr. José Lúcio e Dona Teresa chorando
e dando tchau para você, para a Lu e para a pequena Lili,
dentro de seu carro novo. Aquilo era uma despedida e eu ficaria
por muito tempo sem vê-los... Vocês passaram a vir
me ver só de vez em quando, mas, a cada chegada, eu fazia
uma festa tremenda porque eu nunca os esqueci...
A idade
chegou, onze anos passaram ligeiros e meus dezembros começaram
a pesar. E começaram a pesar para nós todos, eu,
você, a Lu, a Lili, meu companheirão Sr. Lúcio,
minha mãezona Dona Teresa... Presenciei vocês indo
embora, presenciei os problemas de saúde pelos quais
a família passou, presenciei algumas tristezas, mas também
muitas alegrias, momentos os quais nunca esquecerei...
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